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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Publicação no Diário de SP - 6


Pela sexta vez o Diário de São Paulo publica um texto meu. Dessa vez falei sobre os problemas sociais e a falta de compaixão do ser humano. A idéia veio de uma foto que uma amiga tirou, Letícia Belchior: 


O link do jornal é:


ou então é só salvar o link do blog e voltar sempre.

Segue o texto publicado:

Descolamento de retina social


Você vê o que te convém. Milhões de pessoas circulam pelas ruas e nós nos sensibilizamos com os objetos, com pedaços de concreto. Tiramos fotos com as estátuas que simbolizam, que são história. Os prédios são lindos, não são? Mendigos passam despercebidos, porque eles nos assustam. A pobreza incomoda aos olhos de quem não vê a essência. Quem se importa com o homem sujo, com a criança que chora, com a mulher grávida que bate no vidro do carro e te pede uma moeda? Os sujos nos assaltam, nos pertubam. Com um português mal falado, com a boca sem dentes eles nos perseguem em cada esquina, em cada canto. Andam em bando, andam sozinhos, mas andam. Parece que a cada minuto devoram o nosso caminho. Eles nos desviam. A pobreza desvia olhares, desvia sentimentos, nos atinge de uma forma direta e covarde. Nos atropela.


Organizações sociais se esforçam para regularizar a situação e diminuir o que os nossos olhos notam. A sopa da madrugada, um abrigo barato, a comida doada, eventos beneficentes, a poesia, o teatro, a cultura e a união que melhora o pouco que nos acerca. Não resolve. Eles se multiplicam, continuam perambulando pelas ruas e se perdem nas drogas, no álcool, na prostituição, na inocência e na criminalidade também. E isso não é um problema brasileiro. É um problema mundial. Em Nova Iorque tem mendigo, no Canadá também. Não é porque eles são bilíngues ou poliglotas que são diferentes. Os erros sociais são sem fronteiras e se alastram pelas divisas sem pedir passaporte.  A vergonha invade.


Religiões, raças, culturas, sexo e estilo de vida. Tantos preconceitos de todos os lados. O olho que nada vê. Nos cegamos para um sorriso, para um abraço e nos rendemos ao lamento da vida alheia. Nos preocupamos com os bens materiais e o que deveria ser humano se torna fútil. Andamos pelas ruas sem notoriedade. Somos sombras vestidas de amargura, insegurança e solidão. A felicidade incomoda e sorrir gera inveja. A que ponto chegamos? A pobreza que domina as ruas domina também o coração das pessoas. Somos fracos, somos frascos de perfume vazio. Somos a sobra, somos o leite derramado. Você é o espelho daquilo que vê.


O que as igrejas pregam hoje em dia com tanta polêmica sobre os padres que devoram criancinhas? O que os políticos oferecem com tanto dinheiro público desviado, mal aplicado? O que aconteceu com o pai que cozinha enquanto a mãe trabalha? Onde estão as pessoas que abraçam outras e não dão aquele tapinha falso nas costas? Aonde foi parar a fidelidade? Por que as pessoas abandonam as outras? Quantas perguntas temos a todo momento e não temos respostas. O sentimento está entrando em escassez e as pessoas não se olham mais. Elas se suportam.


Governantes, militantes, militares, mortais. Não importa o nível, não existe hierarquia para a impunidade.  A compaixão foi estacionada numa câmara fria e obscura e o que hoje nos dá gosto de olhar, nos cega e nos limita. Nos tornamos objetos recheados de vento e de egoísmo. Somos vermes, porque os vermes não notam, não enxergam. Eles devoram.
Dinheiro, ganância e avareza. Aos poucos vamos estreitando nossos destinos e encurtando as nossas relações sociais. Você vê o que os olhos alcançam, mas é preciso ir além. Nas entrelinhas estão o segredo. As pessoas não precisam de um mundo melhor. Elas precisam de um coração guiado pela razão e de um cérebro menos involuntário.  


Afinal de contas, para quantas pessoas você sorriu hoje? 


Formada em Publicidade e Propaganda, moro nos Estados Unidos como Au Pair há um ano e quatro meses. Se quiser acompanhar a minha experiência nos Estados Unidos, basta acessar meu blog: http://umchocolateaupair.blogspot.com ou me seguir no Twitter em www.twitter.com/umchocolate


Marcela Rios


*Foto por Letícia Belchior

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